Texto associado Leia a crônica Caso de polícia, de Ivan Angelo, e responda à questão. Desde que viu pela primeira vez um filme policial, o rapaz quis ser um homem da lei. Sonhava viver aventuras, do lado do bem. Botar algemas nos pulsos de um criminoso e dizer, como nos livros: “Vai mofar na cadeia, espertinho”. Estudou Direito com o objetivo de ser delegado de polícia. No início do curso, até pensou em tornar-se um grande advogado criminal, daqueles que desmontam um por um os argumentos do nobre colega, mas a partir do segundo ano percebeu que seu negócio eram mesmo as algemas. Assim que se formou, inscreveu-se no primeiro concurso público para delegado. Fez aulas de defesa pessoal e tiro. Estudou tanto que passou em primeiro lugar e logo saiu a nomeação para uma delegacia em bairro de classe média, Vila Mariana. No dia de assumir o cargo, acordou cedo, fez a barba, tomou uma longa ducha, reforçou o desodorante para o caso de algum embate prolongado, vestiu o melhor terno, caprichou na gravata e olhou-se no espelho satisfeito. Encenou um sorriso cínico imitando Sean Connery e falou: – Meu nome é Bond. James Bond. Na delegacia, percorreu as dependências, conheceu a equipe, conferiu as armas, as viaturas, e sentou-se à mesa, à espera do primeiro caso. Não demorou: levaram até ele uma senhora idosa e enfezada. – Doutor, estão atirando pedras no meu varal! Adeus 007. O delegado-calouro caiu na besteira de dizer à queixosa que aquilo não era crime. – Não é crime? Quer dizer que podem jogar pedras no meu varal? – Eu não posso prender ninguém por isso. – Ah, é? Então a polícia vai permitir que continuem a jogar pedras no meu varal? A sujar minha roupa? James Bond não tinha respostas. Procurou saber quem jogava as pedras. A velha senhora não sabia, mas suspeitava de alguém da casa ao lado. O delegado mandou “convidarem” o vizinho para uma conversa e pediu que trancassem a senhora numa sala. – Ai, meu Deus, só falta ser um velhinho, para completar! – murmurou o desanimado Bond. Era um velhinho que confessou tudo dando risadinhas travessas. Repreendeu-o com tom paterno: – O senhor não pode fazer uma coisa dessas. Por que isso, aborrecer as pessoas? – É para passar o tempo. Vivo sozinho, e com isso eu me divirto um pouco, né? O moço delegado cruzou as mãos atrás da cabeça, fechou os olhos e meditou sobre os próximos trinta anos. Pensou também na vida, na solidão e em arranjar uma namorada. Abriu os olhos e lá estava o velhinho. – Pois eu vou contar uma coisa. A sua vizinha, essa do varal, está interessadíssima no senhor, gamadona. O velho subiu nas nuvens, encantado. Recusou-se a dar mais detalhes, mandou-o para casa, e chamou a senhora: – Ele esteve aqui. É um senhor de idade. Bonitão, viu? Confessou que fez tudo por amor, para chamar a sua atenção. Percebeu que uma chama romântica brilhou nos olhos dela. Caso encerrado. (Humberto Werneck, Org. Coleção melhores crônicas – Ivan Angelo. Global, 2007. Adaptado)
De acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, a concordância verbal e nominal está correta em: