Questão de Língua PortuguesaFunções das palavras QUE, SE e Porquês
- Banca:
- Instituto IBEST
- Órgão:
- CRECI DF
- Ano:
- 2026
- Cargo:
- Analista de TI
- Nível:
- Superior
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- GRAN-4308503
Texto para as questões de 1 a 8.
1 Há um século, em 1958, o 31 de dezembro era
véspera de feriado, isto é, trabalhava-se menos a fim
de se descansar no dia seguinte. Os antigos, como se
4 sabe, esfalfavam-se num trabalho penoso de seis dias
e meio por semana, com o mínimo de oito horas
diárias.
7 Não existindo ainda qualquer estabilizador de
emoções, a confusão de sentimentos era geral: à
melancolia se misturava a aflita necessidade de ficar
10 contente. Era cômica, se bem que dramática, essa
busca de alegria num mundo ainda inadequado ao
bem-estar, um mundo de técnica primitiva, dividido
13 em nações que se devoravam, desajustado pela
ameaça de guerras, um mundo insciente, com a
cibernética dando os seus primeiros passos, o sistema
16 solar quase desconhecido, um mundo no qual a fome
coexistia com o luxo, de extraordinária instabilidade
psicológica (os psicanalistas ganhavam muito
19 dinheiro), de economia anárquica, de preconceitos
inacreditáveis, com a juventude ainda ignorando que
lhe cabe a educação dos mais velhos; um mundo,
22 enfim, que fez sobre a época moderna as profecias
mais ridículas.
Interesse relativo para o leitor teria a descrição
25 de como celebravam o fim do ano as classes ricas e
pobres (estas últimas costumavam receber gêneros e
brinquedos às vésperas da passagem do ano). Quanto
28 à classe média, esta usava de expedientes diversos
para obter o produto mais gravoso daqueles tempos:
a alegria. Um deles era lançar mão do crédito
31 comercial, pago em prestações no ano entrante, a fim
de se ter um fim de ano à altura dos anteriores. Nessa
perseguição da alegria, as famílias desde muito cedo
34 colocavam no hi-fi (espantoso aparelho existente nos
museus de fonologia) objetos negros e circulares
(elepês), que mais ou menos reproduziam peças
37 musicais. Em seguida, homens e mulheres acendiam
pequenos cilindros de papel recheados de fumo,
sugavam a fumaça, enviando-a aos pulmões para
40 devolvê-la ao ar em baforadas, grotescas, mas
perfeitamente naturais, em 1958. Como o tabaco
continha substância tóxica, o fumo embotava
43 ligeiramente os nossos bons avós, enevoando-lhes a
mente, pois a questão vital era diminuir o impacto da
realidade. A providência imediata era a ingestão de
46 alguns cálices ou copos de álcool, adicionado a
diversas misturas líquidas, buscando-se nesse ato
reduzir-se um pouco mais a atuação da consciência.
49 Sem o fumo e a bebida, os homens do século XX eram
ainda mais tristes do que com eles.
As superstições eram fecundas. Muito se
52 falava, por exemplo, em entrar no Ano Novo com o pé
direito. Acreditava-se em voto de felicidade: as
pessoas amigas enviavam umas às outras cartões
55 coloridos com augúrios de boa-sorte.
A rigor, o melhor da festa de Ano Novo
(reveillon) consistia em esperar ansiosamente a meia-
58 noite, quando os sinos repicavam, buzinas atroavam,
e pequenos e ruidosos explosivos espocavam no ar.
Diversas famílias se reuniam na casa da família mais
61 festiva entre as de suas relações. Servia-se um
galináceo chamado peru, de carne muito branca,
dura e insípida. O peru foi imolado em tais proporções
64 nas festas antigas que a espécie se extinguiu. E foi por
falta de peru que o rito tradicional do Ano Novo entrou
em decadência.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ano Novo: 2058-2059. In: Manchete, Rio de Janeiro, 10/1/1959 (com adaptações).
Assinale a alternativa em que o vocábulo “se” está empregado como pronome apassivador.
Ver gabarito oficial
Gabarito: Alternativa B.

