Questão de PortuguêsMorfologia: classes de palavras
- Banca:
- Itame
- Ano:
- 2018
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q1305419
Ao receber certa quantia num guichê do Ministério, verificou que o funcionário lhe havia dado cem cruzeiros e mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila. Esperou pacientemente a vez, para que o funcionário lhe fechasse na cara a janelinha de vidro: – Tenham paciência, mas está na hora do meu café. Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde, para encontrar fila maior – não conseguiu sequer aproximar-se do guichê antes de encerrar-se o expediente. No dia seguinte era o primeiro da fila: – Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeiros a mais. – Eu? Só então reparou que o funcionário era outro. – Seu colega, então. Um de bigodinho. – O Mafra. – Se o nome dele é Mafra, não sei dizer. – Só pode ter sido o Mafra. Aqui só trabalhamos eu e o Mafra. Não fui eu. Logo… Ele coçou a cabeça, aborrecido: – Está bem, foi o Mafra. E daí? O funcionário lhe explicou com toda urbanidade que não podia responder pela distração do Mafra: – Isto aqui é uma pagadoria, meu chapa. Não posso receber, só posso pagar. Receber, só na recebedoria. O próximo! O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num súbito impulso de indignação – agora iria até o fim – dirigiu-se à recebedoria. – O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou. – Eu sei. Ele é da pagadoria. Mas foi quem me deu os cem cruzeiros a mais. Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-se de uma devolução, não era isso mesmo? E não de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois então? Onde já se viu pagamento sem guia? Receber mil cruzeiros a troco de quê? – Mil não: cem. A troco de devolução. – Troco de devolução. Entenda-se. – Pois devolvo e acabou-se. – Só com o chefe. O próximo! O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte. No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-se que deveria redigir um ofício historiando o fato e devolvendo o dinheiro. – Já que o senhor faz tanta questão de devolver. – Questão absoluta. – Louvo o seu escrúpulo. – Mas o nosso amigo ali do guichê disse que era só entregar ao senhor – suspirou ele. – Quem disse isso? – Um homem de óculos naquela seção do lado de lá. Recebedoria, parece. – O Araújo. Ele disse isso, é? Pois olhe: volte lá e diga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer que fui eu que falei. O Araújo sempre se metendo a entendido! – Mas e o ofício? Não tenho nada com essa briga, vamos fazer logo o ofício. – Impossível: tem de dar entrada no protocolo. Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Araújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a lá dentro por cima do vidro e foi-se embora.
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Gabarito: Alternativa C.

