Questão de Língua PortuguesaInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- FUNDATEC
- Órgão:
- Prefeitura de Jaguari
- Ano:
- 2026
- Cargo:
- Professor - Área: Artes
- Nível:
- Superior
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- GRAN-4273423
O lixo não começa na lixeira
Por Jaques Paes
01 Faça sua parte”. A frase, repetida à exaustão em campanhas ambientais, virou mantra
02 cívico do nosso tempo. O apelo ... conscientiza do consumidor estar por toda parte: no rótulo
03 reciclável, na embalagem “amiga do planeta”, no selo verde que defende a ideia de
04 sustentabilidade do produto. É sedutor dizer que cada escolha de consumo conta. Mas essa
05 lógica, que parece empoderadora, é também conveniente. Desloca o foco da responsabilidade
06 para o fim da cadeia e transforma um problema sistêmico em questão de comportamento
07 individual.
08 Estímulos, excesso de oferta, infraestrutura precária e práticas padronizadas de mercado
09 são fatores estruturais. Ainda assim, a cobrança recai sobre o consumidor – como se ele tivesse
10 liberdade plena de escolha ou controle sobre o ciclo do produto. Boa parte do lixo que geramos
11 já nasce com data marcada para o descarte. Foi pensado assim, produzido assim, vendido assim.
12 Nas palavras de Jean Baudrillard, não compramos o objeto em si, mas sua representação – um
13 valor simbólico. No “produto sustentável”, compramos .... ideia de fazer a coisa certa. Essa
14 lógica simbólica caminha junto a um dilema ético. Num mundo onde a cidadania se expressa
15 pelo consumo, a responsabilidade torna-se acessível para quem pode pagar – e inalcançável para
16 quem não pode. Quando vira atributo de mercado, a ética deixa de ser crítica e vira vitrine; a
17 moral, absorvida pela lógica da oferta e da demanda.
18 A Política Nacional de Economia Circular tenta reverter esse quadro. Prevê incentivos ....
19 reutilização, selos de sustentabilidade, compras públicas e fóruns com participação social. Mas
20 isso não enfrenta a pergunta incômoda: quem, de fato, é o responsável pelo lixo que produzimos?
21 Indivíduos. Essa é a resposta fácil – afinal, somos nós que consumimos, descartamos,
22 desperdiçamos. Depois vêm as empresas, que projetam produtos de vida útil curta e embalagens
23 excessivas; os governos, que falham em prover regulação e infraestrutura; e o setor de resíduos,
24 que opera no limite. Mas tratar o indivíduo como causa isola mal o problema e empobrece a
25 análise. Seu comportamento não surge no vácuo: é moldado por estímulos, escassez de
26 alternativas, padrões industriais e ausência de infraestrutura. Responsável? Sim. Mas não
27 sozinho. Culpado? Não exatamente.
28 Responsabilizar só o consumidor pressiona quem compra, mas poupa quem projeta.
29 Separar o lixo em casa é nobre. Levar tudo no mesmo caminhão ao mesmo lixão, nem tanto. O
30 lixo não começa na lixeira. Reduzir, reutilizar e reciclar seguem válidos – mas exigem um passo
31 anterior: recusar. Recusar a lógica que nos transforma em clientes de um problema que não
32 criamos.
33 Levantamentos recentes mostram que a maior parte dos resíduos vem da indústria –
34 insumos, processos, embalagens. O design, com obsolescência programada, materiais não
35 recicláveis e excesso de volume, amplia o problema. E a ausência de políticas públicas sólidas
36 apenas o reforça. Talvez a pergunta que nos reste não seja “o que você tem feito pelo planeta?”,
37 mas: – Por que colocaram justamente você para consertar isso?
(Disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2025/10/o-lixo-nao-comeca-na-lixeira.ghtml –texto adaptado especialmente para esta prova.)
O mantra “Faça sua parte” é apelativo e, convenientemente, dirigido:
Ver gabarito oficial
Gabarito: Alternativa C.

