Questão de PortuguêsTipologia e Gêneros Textuais
- Banca:
- AOCP
- Órgão:
- Prefeitura de Belém - PA
- Ano:
- 2021
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q1855877
Texto associado
DOCE
Lembrasse antes quanto tempo gastaria
na beira do fogão mexendo o doce de abóbora e
Maria talvez nem tivesse começado. Mas não é
assim que funciona, a coisa vem de trás pra
frente: primeiro o gosto no fundo da lembrança,
na garganta, daí a saliva na língua. Depois, o
cheiro de algo que nem recordava parece que
está aqui, dentro das narinas. Os ingredientes,
todos comprados, a panela na mão. Só na hora
de mexer o doce é que a gente lembra, com
esse misto de cansaço e tristeza, que o doce é
feito de mexer o doce. É feito do braço girando,
girando, o outro braço solto escorado na anca, o
peso do corpo passando da perna de cá pra de
lá.
O doce já começado é doce inteiro na
imaginação, não tem volta. E Maria nunca foi de
voltar atrás, mesmo com o que era bom só na
primeira mordida e depois deixava um retrogosto
amargo – na boca ou no jeito de olhar. Maria que
nem puxa-puxa, presa às escolhas e caminhos e
ao que por vezes não foi tão escolha quanto foi
acaso.
Bem que às vezes queria ser pássaro
solto, escolher caminhos. A cozinha fica
pequena da falta que voar livre faz, as paredes
suam. Tudo o que é sonho vai evaporando do
seu corpo, a pele fica grossa, dura. O açúcar
carameliza angústias. E Maria pensa se não
seria melhor ter virado cambalhota por sobre um
ou outro acontecimento, em vez de vivê-los
todinhos.
O marido mesmo. Ela cansava de topar
com ele encostado no sofá, vendo TV. Ia de um
canal para o outro, como se não estivesse ali.
Queria que estivesse. Que contasse uma
bobagem que aconteceu no trabalho ou na rua,
que atentasse ao gosto novo no doce que ela
fez, “cê colocou coco?”, “que cheiro diferente,
que foi que cê botou aí?”, qualquer coisa.
Qualquer coisa que fizesse com que os dois
parecessem vivos, que parecessem ligados, nem
que pelo diferente do hoje no doce sempre igual.
Tomasse uma atitude agora, talvez a
coisa toda desembrulhasse diferente. Ela botaria
uma roupa bonita e dançaria pela casa, pintaria
a cara toda faceira e vibrante e mostraria para
ele que ainda era mulher, poxa vida, ainda sou
bem mulher! [...]
Também podia ir embora, pegar as
meninas e as próprias coisas e voltar para a
casa da mãe. Ou podia queimar esse doce,
derrubar panela, fazer escândalo. Pedir tenência,
uma mudança, alguma coisa que mostrasse que
ainda estava viva, viva! Vibrante como esse corde-laranja borbulhando na panela. [...]
PRETTI, Thays. A mulher que ri. São Paulo: Editora Patuá, 2019.
O texto pertence à tipologia narrativa. Qual
das seguintes alternativas apresenta uma
característica que pode fundamentar essa
afirmação?

