Questão de PortuguêsInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- Instituto Consulplan
- Ano:
- 2023
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q3105955
Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa deste mundo: – Engoli uma tampa de Coca-Cola. Levantei as mãos para o céu: mais esta, agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família: – Disse que engoliu uma tampa de Coca-Cola. A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos. – Abra a boca, minha filha. Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado. Mas engoliu como? Quem é que engole uma tampa de cerveja? De cerveja não: de Coca-Cola. Pode ter ficado na garganta – urgia que déssemos uma providência, não ficássemos ali, feito idiotas. Tomei-a ao colo: – Vem cá, minha filhinha, conta só para mim. Você engoliu coisa nenhuma, não é isso mesmo? – Engoli sim, papai – ela afirmava com decisão. Consultei o tio, baixinho: – O que é que você acha? Ele foi buscar uma tampa de garrafa, separou a cortiça do metal: – O que você engoliu: isto... ou isto? – Cuidado que ela engole outra – adverti. – Isto – e ela apontou com firmeza a parte de metal. Não tinha dúvida: pronto-socorro. Dispus-me a carregá-la, mas alguém sugeriu que era melhor que ela fosse andando: auxiliava a digestão. No hospital, o médico limitou-se a apalpar-lhe a barriguinha, cético: – Dói aqui, minha filha? Quando falamos em radiografia, revelou-nos que o aparelho estava com defeito: só no pronto-socorro da cidade. Batemos para o pronto-socorro da cidade. Outro médico nos atendeu com solicitude. – Vamos já ver isto. Tirada a chapa, ficamos aguardando ansiosos a revelação. Em pouco o médico regressava: – Engoliu foi a garrafa. – A garrafa?! – exclamei. Mas era uma gracinha dele, cujo espírito passava ao largo da minha aflição: eu não estava para graças. Uma tampa de garrafa! Certamente precisaria operar – não haveria de sair por si mesma. O médico pôs-se a rir de mim: – Não engoliu coisa nenhuma. O senhor pode ir descansado. – Engoli – afirmou a menininha. Voltei-me para ela: – Como é que você ainda insiste, minha filha? – Que eu engoli, engoli. – Pensa que engoliu – emendei. – Isso acontece – sorriu o médico – até com gente grande. Aqui já teve um guarda que pensou ter engolido o apito. – Pois eu engoli mesmo – comentou ela, intransigente. – Você não pode ter engolido – arrematei, já impaciente. – Quer saber mais que o médico? – Quero. Eu engoli, e depois desengoli – esclareceu ela. Nada mais havendo a fazer, engoli em seco, despedi-me do médico e bati em retirada com toda a comitiva.
(SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro, RJ. 1962. Adaptado.)
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Gabarito: Alternativa D.

