Questão de PortuguêsInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- Instituto Consulplan
- Ano:
- 2024
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q2847906
— Quero lasanha. Aquele anteprojeto de mulher — quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia — entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha. O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais. — Meu bem, venha cá. — Quero lasanha. — Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa. — Não, já escolhi. Lasanha. Que parada — lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato: — Vou querer lasanha. — Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão. — Gosto, mas quero lasanha. — Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá? — Quero lasanha, papai. Não quero camarão. — Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal? — Você come camarão e eu como lasanha. O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo: — Quero uma lasanha. O pai corrigiu: — Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada. A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas 14 interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou: — Moço, tem lasanha? — Perfeitamente, senhorita. O pai, no contra-ataque: — O senhor providenciou a fritada? — Já, sim, doutor. — De camarões bem grandes? — Daqueles legais, doutor. — Bem, então me vê um chinite, e pra ela… O que é que você quer, meu anjo? — Uma lasanha. — Traz um suco de laranja pra ela. Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte. — Estava uma coisa, hem? — comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. —Sábado que vem, a gente repete… Combinado? — Agora a lasanha, não é, papai? — Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo? — Eu e você, tá? — Meu amor, eu… — Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha. O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. No restaurante: para aprender a gostar de ler; São Paulo: Ática, 2002.)
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Gabarito: Alternativa A.

