Questão de Língua PortuguesaInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- FUNDATEC
- Órgão:
- Prefeitura de Agudo
- Ano:
- 2026
- Cargo:
- Médico Clínico Geral
- Nível:
- Superior
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- GRAN-4270508
O cuidado e a desolação
Por José Henrique Bortoluci
- A atual crise do cuidado, agravada por mudanças demográficas, aponta para um modelo em
- ruínas. Enquanto a população experimenta um aumento notável na longevidade, a infraestrutura
- do cuidado necessária para amparar essa nova realidade segue frágil, assentada em bases fiscais
- e em soluções culturais temerárias. A geração dos nascidos em meados dos anos 1980 já começa
- a enfrentar de forma dramática essa nova realidade demográfica – neste momento como
- cuidadores, mas em algumas décadas como idosos que precisarão de cuidados. Essa nova
- realidade expõe ainda os problemas de um sistema que historicamente dependia de soluções
- precárias e machistas, como a figura da tia solteira, que assumia os cuidados dos pais.
- A transformação demográfica é silenciosa, mas acelerada. A projeção indica que a população
- brasileira crescerá até 2047, alcançando 233,2 milhões de habitantes, para então diminuir
- gradualmente para 228,3 milhões em 2060. Nesse ano, aproximadamente 25% da população terá
- mais de 65 anos. Em apenas duas décadas, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais poderá
- dobrar (de 15% para 30%), enquanto a proporção daqueles com 80 anos ou mais poderá triplicar
- (de 2,3% para 7%). Esta rápida transição de um país jovem para um país envelhecido impõe
- desafios significativos aos modelos econômicos, à previdência social, às estruturas familiares e às
- concepções acerca dos cuidados necessários.
- O impacto mais forte será sentido na dependência de idosos. Em 2020, havia 22 idosos para
- cada 100 pessoas em idade ativa. Em 2060, esse número deve saltar para 65. E as pessoas da
- minha geração (nascidas em meados dos anos 1980) serão parte expressiva desse grupo. Isso
- significa que cada adulto poderá ter de sustentar quase dois idosos – uma mudança radical tanto
- para nossas concepções sobre cuidado e interdependência, quanto para o Estado e as políticas
- públicas, em todos os níveis da federação.
(Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/geracao-democracia-parte-v_o-cuidado-e-a-desolacao/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o texto apresentado à luz da concepção de implícito e intencionalidade discursiva conforme Fiorin e Savioli (2018), analise as assertivas abaixo:
I. Ao afirmar que “a infraestrutura do cuidado necessária para amparar essa nova realidade segue frágil”, o narrador pressupõe a existência prévia de um modelo consolidado de cuidado, cuja fragilidade atual é resultado exclusivo da transição demográfica acelerada.
II. A referência à “figura da tia solteira, que assumia os cuidados dos pais” atualiza discursivamente uma crítica a arranjos culturais naturalizados, produzindo um efeito de sentido que denuncia a historicidade machista da divisão social do cuidado.
III. Quando o texto afirma que “cada adulto poderá ter de sustentar quase dois idosos”, constrói-se um implícito de que poderá haver sobrecarga financeira.
Quais estão corretas?

