Questão de PortuguêsInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- PR-4 UFRJ
- Ano:
- 2021
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q1880121
De repente você resolve: fugir. Não sabe para onde nem como nem por quê (no fundo você sabe a razão de fugir; nasce com a gente). É preciso FUGIR. Sem dinheiro sem roupa sem destino. Esta noite mesmo. Quando os outros estiverem dormindo. Ir a pé, de pés nus. Calçar botina era acordar os gritos que dormem na textura do soalho.
Levar pão e rosca; para o dia. Comida sobra em árvores infinitas, do outro lado do projeto: um verdor eterno, frutescente (deve ser). Tem à beira da estrada, numa venda. O dono viu passar muitos meninos que tinham necessidade de fugir e compreende. Toda estrada, uma venda para a fuga.
Fugir rumo da fuga que não se sabe onde acaba mas começa em você, ponta dos dedos. Cabe pouco em duas algibeiras e você não tem mais do que duas. Canivete, lenço, figurinhas de que não vai se separar (custou tanto a juntar). As mãos devem ser livres para pessoas, trabalhos, onças que virão.
Fugir agora ou nunca. Vão chorar, vão esquecer você? ou vão lembrar-se? (lembrar é que é preciso, compensa toda fuga.) Ou vão amaldiçoá-lo, pais da Bíblia? Você não vai saber. Você não volta nunca. (Essa palavra nunca, deliciosa.) Se irão sofrer, tanto melhor. Você não volta nunca nunca nunca. E será esta noite, meia-noite Em ponto.
Você dormindo à meia-noite. Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Fuga. In: Menino antigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 155-156.
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Gabarito: Alternativa E.

