Questão de PortuguêsInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão:
- UNIVESP
- Ano:
- 2025
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q3340918
Texto associado
Texto 8A1-I
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias
questões de alta transcendência. (...)
Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu,
em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera
límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco
investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente
os mais árduos problemas do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os
que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto
personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no
debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse
homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e
cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem
instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca;
e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a
discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no
homem, como uma herança bestial.
Como desse esta mesma resposta naquela noite,
contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que
dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um
instante, e respondeu:
— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este
casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta
ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na
natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro
amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a
mesma discussão tornou-se difícil... Um dos argumentadores
pediu ao Jacobina alguma opinião, uma conjetura, ao menos.
— Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou
outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não
discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um
caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração
acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma
só alma, há duas...
— Duas?
— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz
duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que
olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito,
um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma
operação. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir
a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das
metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há,
não raros, em que a perda da alma exterior implica a da
existência inteira.
E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho
experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe;
restrinjo-me ao episódio de que lhes falei.
Eis aqui como ele começou a narração:
— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser
nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o
acontecimento que isto foi em nossa casa. Vai, então, uma das
minhas tias, D. Marcolina, que morava a muitas léguas da vila,
desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda.
Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila,
porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a
minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo
menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes... Se
lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de
mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e
magnífica, que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe,
que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte
de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a
tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas se via
nele ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins
esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de
madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas
bom...
O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções,
obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural
sentimento da mocidade ajudou e completou. O alferes eliminou
o homem. Durante alguns dias, as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma
parte mínima de humanidade. Aconteceu, então, que a alma
exterior mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés
da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do
homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela
que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no
ar e no passado.
Machado de Assis. O espelho. Esboço de uma nova teoria da alma humana.
In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (com adaptações).
No texto 8A1-I, a intenção precípua do narrador é

