Questão de Língua PortuguesaCrase
- Banca:
- FUNDATEC
- Órgão:
- Prefeitura de Bento Gonçalves
- Ano:
- 2026
- Cargo:
- Professor - Área: Artes
- Nível:
- Superior
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- GRAN-4351227
Por que crianças não quebram mais o braço?
Por Pedro Guerra
01 Nunca quebrei um braço quando criança. Nascido nos anos 1990, sei que isso me coloca no
02 time das exceções. Naquele tempo, era quase um rito de passagem encontrar um colega de
03 escola com gesso no braço ou na perna — testemunhos em branco de aventuras ...... calculadas,
04 árvores subidas depressa demais, quedas de bicicleta, disputas no campinho, e por aí vai.
05 Estou delirando ou essa cena anda rara? Não lembro a última vez em que vi uma criança
06 exibindo um gesso assinado pelos amigos. Desde que me dei conta disso, aliás, passei a me
07 perguntar o motivo.
08 A resposta é simples e, ao mesmo tempo, assustadora: as crianças continuam quebrando,
09 só que outras coisas.
10 Se antes o risco maior era cair do muro, agora se tornou desabar em si. Nos últimos anos,
11 cresceu o número de diagnósticos, rótulos e ansiedades que não faziam parte da infância décadas
12 atrás. Não porque não existiam, mas porque não tinham espaço para aparecer. A queda, antes
13 física, hoje é oculta e interna.
14 Estudos recentes evidenciam o crescimento dos transtornos mentais entre crianças.
15 Já preocupantes, os números provavelmente são ainda maiores, considerando que nem toda
16 infância tem acesso ao diagnóstico formal.
17 Hoje, antes mesmo de correrem o risco de quebrar um braço, algumas crianças já carregam
18 fraturas invisíveis. São dores quietas, sem sirene, sem compressa, sem gesso. Nada anuncia o
19 impacto. ___ vezes, nem elas mesmas entendem onde dói — apenas aprendem a conviver com
20 o incômodo, como quem ajeita um sapato apertado sem saber dizer qual parte que machuca.
21 Os motivos não são poucos — e quase todos fazem parte do cotidiano que construímos para
22 elas. Lá (não tão) atrás, normalizamos uma ..................... digital desde cedo. A brincadeira
23 livre perdeu espaço para as telas, tão temidas quanto inevitáveis. Muitos pais, exaustos pelo
24 próprio formato de mundo que criamos, tornaram-se emocionalmente indisponíveis sem querer.
25 Soma-se a isso ___ pandemia: anos formativos vividos no isolamento, seguidos de um tipo de
26 bullying que não se restringe ___ escola. Tudo isso compõe uma sociedade que, sem perceber,
27 acelera a infância até que ela tropece em si mesma.
28 Talvez as quedas de hoje doam mais justamente porque não deixam marcas aparentes.
29 E, enquanto não aprendermos a enxergá-las, teremos muito mais trabalho do que envolver um
30 braço em gesso e esperar pela melhora. Quebrar por dentro é um ato silencioso — quase sempre
31 imperceptível num primeiro momento. E, quando percebemos, descobrimos que o cuidado é
32 mais longo. Ao ............ do gesso, não há um prazo exato para que tudo volte a firmar.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/pedro-guerra/noticia/2025/12/por-que-criancasnao-quebram-mais-o-braco-cmj2y6ojc01y8014o699c5t7b.html – texto adaptado especialmente para
esta prova).
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas dos trechos a seguir, retirados do texto:
- “___ vezes, nem elas mesmas entendem onde dói” (l. 19).
- “Soma-se a isso ___ pandemia” (l. 25).
- “[...] seguidos de um tipo de bullying que não se restringe ___ escola” (l. 25-26).
Ver gabarito oficial
Gabarito: Alternativa A.

