Questão de PortuguêsInterpretação e Compreensão de Texto
- Banca:
- VUNESP
- Ano:
- 2023
- Modalidade:
- Múltipla escolha
- Código:
- Q2250721
Texto associado Leia o texto para responder à questão
Quando criança, os meus pais me acordavam com a didática do grito. Não surtindo efeito, iam lá mexer nos meus ombros. Não cumprindo a sua missão ainda, puxavam as minhas cobertas. Na época, não havia celular, muito menos alarme dos aplicativos. Rádio-relógio era caro e ficava na cabeceira dos adultos. Eu lutava contra as táticas militares materna e paterna. Procurava uma prorrogação, uma soneca, um adiamento fingindo dormir. Só não resistia à estratégia da avó Elisa. Ela sabia acordar as pessoas, inspirar o sonho de olhos abertos. Tinha PhD do sereno da madrugada e do galo cantando. Ela me despertava pelo olfato. Pois não é pelo ouvido que acordamos, mas pelo nariz. Ela recolhia um maço de hortelã da horta e espalhava perto de mim. Não soltava um pio, não falava nada. Entrava silenciosamente no quarto abafando as tiras do seu velho chinelo e largava o seu contrabando de ervas pelos travesseiros. Com o cheiro forte do tempero, estranhíssimo naquele cenário de linho e penas de ganso, eu saía do conforto dos lençóis. Não tinha como continuar dormindo — a curiosidade se fazia mais forte do que a dormência. A hortelã berrava com o seu perfume. É impossível para alguém se defender do seu aroma forte, lembrando os assados do Natal e do Ano-Novo. Provocava imediata fome e repentina avidez pelo sol. Assim que me punha de pé, a avó zombava de mim, vitoriosa de seu jeitinho: — Já se levantou? Podia ter dormido mais. Acordou dez minutos antes da hora. Até hoje, no momento de pular da cama, procuro por perto o ramo de hortelã para ver se não o encontro no travesseiro ao lado. Minha avó não está mais aqui, o câncer a levou para longe, mas ela achou um modo todo seu de entrar em minha respiração e me dar bom-dia.
(CARPINEJAR, Fabrício. Cuide de seus pais antes que seja tarde. Editora Bertrand Brasil, 2018. Adaptado)
No 5º parágrafo, a expressão “Provocava [...] repentina avidez pelo sol.” é empregada pelo autor para expressar a ideia de que, parece-lhe, o aroma da hortelãQuando criança, os meus pais me acordavam com a didática do grito. Não surtindo efeito, iam lá mexer nos meus ombros. Não cumprindo a sua missão ainda, puxavam as minhas cobertas. Na época, não havia celular, muito menos alarme dos aplicativos. Rádio-relógio era caro e ficava na cabeceira dos adultos. Eu lutava contra as táticas militares materna e paterna. Procurava uma prorrogação, uma soneca, um adiamento fingindo dormir. Só não resistia à estratégia da avó Elisa. Ela sabia acordar as pessoas, inspirar o sonho de olhos abertos. Tinha PhD do sereno da madrugada e do galo cantando. Ela me despertava pelo olfato. Pois não é pelo ouvido que acordamos, mas pelo nariz. Ela recolhia um maço de hortelã da horta e espalhava perto de mim. Não soltava um pio, não falava nada. Entrava silenciosamente no quarto abafando as tiras do seu velho chinelo e largava o seu contrabando de ervas pelos travesseiros. Com o cheiro forte do tempero, estranhíssimo naquele cenário de linho e penas de ganso, eu saía do conforto dos lençóis. Não tinha como continuar dormindo — a curiosidade se fazia mais forte do que a dormência. A hortelã berrava com o seu perfume. É impossível para alguém se defender do seu aroma forte, lembrando os assados do Natal e do Ano-Novo. Provocava imediata fome e repentina avidez pelo sol. Assim que me punha de pé, a avó zombava de mim, vitoriosa de seu jeitinho: — Já se levantou? Podia ter dormido mais. Acordou dez minutos antes da hora. Até hoje, no momento de pular da cama, procuro por perto o ramo de hortelã para ver se não o encontro no travesseiro ao lado. Minha avó não está mais aqui, o câncer a levou para longe, mas ela achou um modo todo seu de entrar em minha respiração e me dar bom-dia.
(CARPINEJAR, Fabrício. Cuide de seus pais antes que seja tarde. Editora Bertrand Brasil, 2018. Adaptado)
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Gabarito: Alternativa E.

